António Costa Silva, Plano Obama, Partex Oil and Gas e… Portugal

António Costa Silva. Presidente da comissão executiva da Partex ( Gulbenkian)

Partilhamos uma entrevista do presidente da Partex Oil and Gas, onde fala sobre petróleo, de Obama, de países que estão em guerra civil ou em “democratização” e países árabes. Do capitalismo, do Banco Mundial, de energia, etc…

António Costa Silva é professor no IST (Instituto Superior Técnico de Lisboa)

mqdefaultLicenciatura em Engenharia de Minas pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, fez o Mestrado em Engenharia de Petróleos no Imperial College (Universidade de Londres) e o Doutoramento no Instituto Superior Técnico e no Imperial College

É o actual Presidente da Comissão Executiva do Grupo PARTEX OIL AND GAS. A PARTEX está envolvida em projectos de exploração e produção de petróleo e gás em Abu Dhabi, Oman, Kazaquistão, Brasil, Argélia, Angola e Portugal. De 2001 a 2003 trabalhou no Instituto Francês do Petróleo (IFP) em Paris, no seu ramo empresarial (BEICIP-FRANLAB).

Destacam-se os seguintes Projectos: Hassi-Messaoud para a Sonatrach na Argélia, Cantarel para a Pemex no México, El Furrial, Zapatos e Bachaquero para a PDVSA na Venezuela, North Harad (campo Gawhar) para a Saudi Aramco na Arábia Saudita e os projectos de Gascharan e Salman no Irão.

Em 2002 foi seleccionado pelo Tribunal Internacional da Câmara de Comércio de Estocolmo como o perito internacional encarregue de resolver a disputa jurídica e técnica entre duas das maiores companhias de petróleo do mundo, num campo ao largo do Mar da China.

De 1998 a 2001 foi Director Executivo da Multinacional Francesa CGG (Compagnie Générale de Geophysique) e dirigiu o seu escritório em Lisboa, coordenando projectos de Exploração e Produção no Médio Oriente (Bahrain), no México e na Rússia.

Em 1980 iniciou a sua actividade profissional na Sonangol em Angola

De 1984 a 1997 exerceu a sua actividade na CPS (Companhia Portuguesa de Serviços) trabalhando entre outros projectos, no projecto Tacis “Assistance for New Oil Field Development” apoiado pela Comissão Europeia e executado para a Oblast da Sibéria Ocidental (Tyumen). Actualmente tem recebido convites para conferências internacionais sobre energia. Em Janeiro de 2007 participou como orador em Potsdam na conferência organizada pelo Fundo Marshall dos EUA e da Alemanha  integrada no ciclo dos Diálogos Transatlânticos sobre energia. Em Maio de 2007 participou como orador convidado no seminário sobre Segurança Energética realizado no “Deutsche Bank” em Berlim, no âmbito da preparação da cimeira do G8 e organizado pelo Fundo Marshall e pela Alfred Herrhausen Society.

Quanto aos últimos trabalhos publicados salientam-se os seguintes: “O Petróleo e as Relações Internacionais”, revista de Relações Internacionais, IPRI, Nº6, 2005; “Does the End of Oil means the End of Oil Culture?”, Seminar on “Energy and Environment”, Casa de Mateus, Setembro de 2006; “Europa e a Segurança Energética”, Revista do IDN (Instituto de Defesa Nacional), Março de 2007; ”Europe and Russia: How the Energy Partnership can work?”, Bureau of European Policy Advisers – Monthly Briefing, Comissão Europeia, Bruxelas, Dezembro 2008.

UM NOVO MODELO ENERGÉTICO? «YES WE CAN»

“Excertos de um texto de: António Costa Silva

Mas há no entanto um traço comum: hoje como em 1933 os Estados Unidos e o mundo inteiro pedem acção e acção já!

A CRISE ECONÓMICA E FINANCEIRA ACTUAL E AS RESPOSTAS

O ano de 2008 foi caracterizado por um primeiro semestre em que o alto preço do petróleo e das commodities em geral, incluindo as alimentares, levou alguns a desenterrar as teorias de Malthus e terminou com um segundo semestre em que se assistiu a uma intervenção crescente dos governos na economia e ao regresso das teorias de outro economista – John Maynard Keynes

É neste contexto que devemos perguntar: porquê o regresso das teorias keynesianas que estão na base do plano do Presidente Obama e que foram consagradas na cimeira do G-20 realizada em Washington em Novembro de 2008?

Keynes defendeu todo um programa para estimular a economia nestas circunstâncias com base no aumento da despesa pública (financiada pela dívida) e na redução dos impostos. É neste quadro que emerge o plano do Presidente Obama e as propostas da cimeira de Novembro do G-20 apelando a respostas para a crise económica e financeira que passam por uma maior intervenção dos governos na economia, mais sector público e mais regulação. O Presidente Reagan iniciou nos anos de 1980, quando postulou: «O Governo não é a solução para os nossos problemas». Neste novo ciclo o Governo é uma solução, desde que seja eficaz, sem que isso desvalorize o papel do mercado livre como gerador de riqueza e progresso. Também não basta aumentar a despesa pública financiada com a dívida para sairmos da crise.

O PLANO OBAMA: CONTEXTO E OBJECTIVOS

CONTEXTO

O Plano Obama para a recuperação económica dos Estados Unidos contempla três vertentes essenciais: o investimento em infra-estruturas; a ajuda aos governos estaduais e comunidades locais; e o investimento em tecnologias limpas e no ambiente para mudar a matriz energética americana e reduzir a dependência do país dos combustíveis fósseis. o plano do Presidente Obama tem dois objectivos claros no curto prazo: reactivar a economia e lutar contra o desemprego. Para isto acontecer o plano aposta na área da energia e das tecnologias limpas para servir de motor à activação da economia do país levando a um novo ressurgimento económico.

O plano é plausível?

Como vamos procurar demonstrar a energia é uma boa escolha. Um indicador preocupante é que a capacidade global de armazenamento de petróleo, que está funcional, corresponde a menos de dez dias da procura mundial, o que significa que há menos de dez dias a separar a destruição da procura da destruição da oferta. Vivemos, portanto, num sector crucial para a economia global, no fio da navalha.

De facto, se analisarmos as últimas grandes crises que o mundo atravessou, vemos claramente que há uma interacção de todas elas com os períodos seguintes de desenvolvimento económico. Neste contexto, as lições da História são importantes.

A saída da Grande Depressão de 1929-1933 baseou-se num programa keynesiano de grandes obras públicas mas também no desenvolvimento do complexo militar e industrial americano que serviu de motor económico, recebeu um grande impulso com a II Guerra Mundial e gerou um ciclo positivo de desenvolvimento. No fim dos anos 90 do século passado a saída da crise assentou no desenvolvimento da internet, na aposta nas novas tecnologias de informação e comunicação e na emergência das redes. Quando se deu o colapso das empresas «dot.com» em 2001, com o rebentar da bolha tecnológica, a saída da crise assentou na expansão do mercado imobiliário e financeiro que gerou um novo ciclo de desenvolvimento e riqueza. Este ciclo, por sua vez, conduziu à crise destes sectores em 2007 e 2008 e gerou a primeira crise verdadeiramente global.

Olhando para os grandes desafios do século XXI – o terrorismo, a segurança energética e a ameaça climática – é indubitável concluir que a aposta na economia da energia é uma boa escolha. A energia pode ser o eixo estratégico de desenvolvimento virado para o futuro e, para ter sucesso, como saída para a crise, é importante que os investimentos sejam sustentáveis e respondam aos critérios enunciados por Lawrence Summers.

VANTAGENS E RISCOS ASSOCIADOS

OS RISCOS ECONÓMICOS

Os recursos financeiros são mais escassos, o crédito é mais apertado e o dinheiro pode não chegar para tudo, nomeadamente para os investimentos de fundo na mudança da matriz energética, no ambiente e em tecnologias limpas.

Por outro lado, em épocas de recessão, a História ensina que o proteccionismo e o nacionalismo sofrem um aumento considerável. E os Estados Unidos são um país particularmente propenso a estes fenómenos, mesmo em períodos de prosperidade, como se viu recentemente na Administração Bush – e apesar do esforço positivo desta – com o chumbo das duas câmaras do Congresso à proposta da empresa estatal chinesa de petróleo (CNOOC) para a aquisição da companhia americana UNOCAL ou o chumbo à proposta da empresa dos portos do Dubai (DPC) para a aquisição de interesses nas infra-estruturas portuárias dos Estados Unidos.

Como resumiu Martin Wolf, hoje a escolha «é entre uma economia mundial mais equilibrada ou a desintegração» É também importante a preocupação do Plano Obama em assegurar reembolsos às empresas com prejuízos em 2008 e 2009 para que possam ter liquidez.

Os Estados Unidos são o primeiro consumidor de petróleo do mundo. Um em cada quatro barris de petróleo que são produzidos no mundo vai para os Estados Unidos. Em 2007, consumiram 21 MB/D (milhões de barris por dia).

Os Estados Unidos têm uma clara estratégia de diversificação das suas fontes de abastecimento, o que é uma lição para a Europa que está excessivamente dependente do petróleo e gás da Rússia. A estratégia dos Estados Unidos é notável: 75 por cento das suas fontes de abastecimento estão localizadas no hemisfério ocidental; o eixo atlântico que vai da América do Norte (Canadá) à América Central (México), à América do Sul (Venezuela e Colômbia), à África Ocidental (Nigéria e Angola) e à Europa do Norte (Noruega), funciona em pleno. Esta estratégia de valorização da Fonte: AIE.  bacia atlântica, ao mesmo tempo que não descura outras grandes zonas produtoras como o Médio Oriente (Arábia Saudita, Iraque e Kuwait).

A indústria petrolífera é cíclica e quando um ciclo de altos preços do petróleo é seguido por uma baixa significativa, a aposta em fontes alternativas desaparece. Isso aconteceu a seguir ao choque petrolífero de 1979-1980. Quando em 1985 o preço do petróleo chegou abaixo dos 10 dólares por barril, todas as tecnologias de substituição que tinham sido desenvolvidas, incluindo as energias renováveis e a nuclear, foram postas em causa. O que sobrou foi a energia nuclear nalguns países, em especial em França, onde hoje é responsável pelo fornecimento de 80% da electricidade do país.

Acontece, como a História amplamente demonstra, o desenvolvimento de fontes alternativas de energia sofre em geral uma desaceleração. Esperemos que desta vez os erros do passado não se repitam, mas nada o garante. Este é um risco claro para a implementação do Plano Obama e para a sua aposta nas energias alternativas. E só há uma forma de fazer face a este problema: é aumentar os impostos nos Estados Unidos sobre o petróleo e a gasolina aplicando uma espécie de Taxa Pigou.

A Taxa Pigou serve para estimular os produtos que protegem o ambiente e asseguram um desenvolvimento sustentável. Mas o problema é que nunca até hoje nenhum Presidente americano ousou enfrentar este problema aumentando os impostos do petróleo e gasolina e não é seguro que o Presidente Obama vá alterar esta posição. É preciso muita coragem para o fazer num país em que o automóvel é o cerne do modo de vida americano, um país que é o maior consumidor de petróleo do mundo e onde os Sport Utility Vehicles (SUV) são um ícone cultural. Toda esta análise mostra que no contexto actual os baixos preços do petróleo e da gasolina criam pouco estímulo económico para o desenvolvimento de energias alternativas

Hoje, a redução da dependência energética é impossível de atingir no plano estritamente nacional.

O Presidente Obama parece não ter dado atenção no seu plano a esta necessidade vital de adaptar a arquitectura de segurança energética ao mundo de hoje, o que implica rever a magnitude e os mecanismos de utilização das Reservas Estratégicas de Petróleo, criar as Reservas Estratégicas de Gás, rever a arquitectura da Agência Internacional de Energia e a necessidade de nela incluir como membros de pleno direito a China e a Índia

O Plano Obama contém elementos absolutamente positivos como a aposta na mudança da matriz energética e na criação de uma economia baseada em energias limpas. Relativamente ao programa para reduzir as emissões de CO2, o Plano Obama limitou-se a copiar o modelo europeu que tem dado fracos resultados. É bom ver que o cap and trade scheme tem grandes limitações, fixa um tecto de emissões em vez de fixar um preço para a tonelada de CO2  e com isso cria muitas ambiguidades no mercado no que se reflecte aos fracos resultados alcançados. Além disso, na Europa o cap and trade scheme foi desenhado e montado por empresas privadas que recolhem a maior parte dos benefícios financeiros deste esquema, juntamente com as grandes empresas poluidoras a quem são atribuídas licenças de emissão que depois revendem, quando os recursos financeiros gerados deviam ser utilizados exactamente para promover o desenvolvimento de novas tecnologias limpas.

The-Story-Of-Cap-And-TradeO Plano Obama não tira ilações dos erros da Europa nesta matéria e indo pela mesma via arrisca-se a prometer muito na teoria e a alcançar pouco na prática como acontece em quase todos os países europeus

Um outro elemento que é muito positivo no Plano Obama é a aposta em Investigação e Desenvolvimento, mas são necessárias precauções. O Governo deve assegurar a Investigação fundamental e básica, mas deve resistir à tentação de seleccionar as tecnologias mais promissoras deixando esse papel ao mercado. Como se sabe, os governos não são bons nem a alocar recursos nem a escolher tecnologias.

«Promover a ciência significa assegurar que os factos e evidências não são nunca distorcidos ou obscurecidos pela política ou pela ideologia.»

Há uma inércia inerente ao comportamento humano que não favorece os grandes planos de mudança. E isto é particularmente válido para o Plano Obama na área da energia: para ter sucesso exige a mudança do quadro mental dos americanos, exige a mudança do comportamento da nação viciada no consumo de petróleo e gasolina, como a definiu o Presidente George W. Bush, para a transformar numa nação mais amiga do ambiente e do desenvolvimento sustentável. Como já foi referido, a profunda recessão económica e a baixa do preço dos combustíveis não favorece para já esta mudança. Maquiavel escreveu a «mudança não tem clientes»

A «Grande Estratégia» passa por novas organizações multilaterais, pela reinvenção da ONU – que hoje está completamente desacreditada e inoperante –, por um novo acordo financeiro global do tipo Bretton Woods, por um organismo multilateral para lidar com a gestão dos recursos do planeta e a ameaça climática e arquitectar um acordo pós-Quioto realmente global e efectivo

Existe uma área geográfica no mundo onde vivem cerca de mil milhões de pessoas e que se estende da Somália à Índia e à Rússia passando pelo Cáucaso, pela Península Arábica, o Médio Oriente e que engloba Israel, a Palestina, o Afeganistão, o Iraque, o Irão e o Paquistão e que deve merecer uma atenção particular do Presidente Obama. Estabilizar esta área geográfica é uma contribuição indispensável para criar uma nova atmosfera nas relações internacionais.

GNN: Uma coisa é certa: business as usual, quer na área da energia quer nos problemas internacionais, é o caminho certo para o desastre.

A crise global exige uma resposta global. O mundo precisa, mais do que nunca, da liderança esclarecida dos Estados Unidos para ultrapassar esta crise.”

                                                                                                                        FIM…

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