Torres Vedras e gás natural

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Petróleo: Prospecção em Torres Vedras e Alenquer

A empresa canadiana Mohave Oil & Gas está a desenvolver nos concelhos de Torres Vedras e Alenquer uma prospeção sísmica com vista à pesquisa de petróleo e gás natural. Recorrendo à mais moderna tecnologia de pesquisa de petróleo, duas centenas de trabalhadores estão no terreno a efetuar estudos geofísicos.

“Estamos a determinar os locais propícios à realização de sondagens de pesquisa de hidrocarbonetos [petróleo e gás natural]”, afirmou o geólogo  Rui Vieira, que adiantou que até ao final de 2012 deverá ser realizada uma terceira sondagem em Torres Vedras.

No decurso deste trabalho, poderá ser retomada a sondagem efetuada em 2009 no concelho de Alenquer e entretanto abandonada. Os trabalhos consistem em, através de camiões de grande porte ou da detonação de explosivos em zonas inacessíveis, provocar enormes vibrações até aos 4000 metros de profundidade em 23 mil pontos identificados no terreno. Os resultados são registados em computadores colocados em 26 mil estações, pequenas caixas alimentadas por baterias e que estão espalhadas pelo território à vista de qualquer cidadão, e depois enviados para a sede da empresa em Torres Vedras, onde vários técnicos estão a processá-los e a reuni-los numa enorme base de dados. Na zona de Torres Vedras, a Mohave já efectuou no início deste ano duas sondagens nas freguesias de São Pedro da Cadeira e Ventosa, depois de outras pesquisas feitas neste concelho e ainda em Alenquer e Mafra.

“Em alguns locais de Torres Vedras, encontra-se petróleo à superfície. Há agricultores que fazem furos de água e encontram só água salobra, ou seja, manchada de óleo, o que coadjuvado com o conhecimento que temos, nos permite dizer que é possível encontrar petróleo”,

Sem ainda ter descoberto uma reserva rentável, a empresa canadiana conseguiu em 2007 extrair “algumas centenas de barris de petróleo”, ao retomar o projeto desenvolvido nos anos 50 pela Companhia Portuguesa de Petróleo, que conseguiu retirar cerca de 15 mil barris

“Neste momento de crise e sendo Portugal muito dependente de petróleo, temos de encarar este trabalho como um desígnio nacional”, sublinhou Rui Vieira.

Há 18 anos em Portugal, a Mohave já investiu 42 milhões de euros nas cinco concessões de prospeção, três ‘onshore’ (em terra, em Aljubarrota, Rio Maior e Torres Vedras) e duas ‘offshore’ (no mar, ao largo de São Pedro de Moel e Cabo Mondego). Até 2013 prevê gastar 70 milhões de euros.

A exploração de petróleo na região Oeste, cuja concretização chegou a ser avançada para este ano, foi adiada para 2011, disse ao Correio da Manhã Joe Berardo, parceiro da companhia canadiana Mohave Oil & Gás. O atraso resulta da adaptação de tecnologia de poços direcionais e horizontais que deverão ser instalados numa primeira fase nos concelhos de Alcobaça e Torres Vedras, acrescentou o investidor.

Joe Berardo confirmou que “há petróleo em Portugal, o que falta é encontrar a solução mais económica para o extrair”.

A Mohave Oil & Gas estima, numa avaliação mais otimista, a existência de reservas de 500 milhões de barris de crude no subsolo português. O valor destas reservas responde às necessidades do País ao longo de cinco anos. Na estimativa mais pessimista, serão 18,2 milhões de barris.

Segundo a Sed Strat Geoscience, o valor destas reservas oscila entre os mil milhões de euros e os 35 mil milhões de euros. A empresa canadiana tem a concessão de quatro blocos de petróleo e gás natural em Portugal, numa área que se estende de Mafra até Alcobaça.

Após 16 anos de pesquisa em Portugal, a Mohave realizou um aumento de capital de 12,1 milhões de euros para financiar o arranque da produção comercial. Numa primeira calendarização, a empresa previa que a perfuração dos primeiros poços, em Aljubarrota (Alcobaça) e em Torres Vedras, começasse em Maio. Segundo as previsões da empresa, o arranque comercial da produção devia iniciar-se ainda este ano, sendo que o crude seria vendido à Galp ao abrigo de um acordo entretanto assinado.

APENAS UMA CONCESSÃO PARA EXPLORAR EM TERRA

De acordo com a Direcção-Geral de Energia e Geologia, estão assinados quatro contratos de concessão para exploração petrolífera em Portugal. A Mohave Oil & Gas explora a bacia Lusitânica desde o Cabo Mondego até Torres Vedras, sendo a única concessão que pode explorar recursos no mar e em terra. Já o consórcio Petrobras/Galp//Partex tem a concessão da bacia de Peniche, enquanto o consórcio Petrobras/Galp detém a licença na bacia do Alentejo. A exploração da bacia do Algarve está adjudicada à Repsol/RWE Dea.

POÇOS DIRECCIONAIS E HORIZONTAIS

Tecnologia criada em 1986 nos Estados Unidos e que representa neste país 10% dos poços instalados. Uma vez fixado o ponto onde explorar é introduzido no subsolo o equipamento de perfuração cuja trajectória é efectuada na horizontal.

Vantagens

– Produção é 6 a 7 vezes superior à de um poço vertical.

– Requer a perfuração de menos poços, pois vários campos podem ser explorados do mesmo ponto.

– Atinge locais inacessíveis para a perfuração vertical como zonas habitadas, salinas, bases de uma montanha ou terrenos instáveis.

Seis companhias petrolíferas estão a procurar petróleo em Portugal. Uma delas, a Mohave, chegou há vinte anos à região do Oeste e os responsáveis continuam a acreditar que vão encontrar o ouro negro que move o mundo. Não faltam indícios de que o temos. Não se sabe é quanto e de que qualidade.

«O petróleo é que nem a coca-cola: não existe sem gás. Nuns locais tem mais óleo, noutros tem mais gás natural.» Mas que Portugal o tem, disso não duvida Arlindo Alves, o homem que por cá dirige a americana Mohave Oil and Gas Corporation, a companhia petrolífera que há mais tempo procura petróleo em solo nacional, sem interropções. O especialista brasileiro só não sabe três coisas: onde está exatamente, se existem acumulações suficientes para uma exploração economicamente viável e de que qualidade é.

A crença de que Portugal tem o produto que faz mover o mundo tem sustentação, não apenas em estudos geológicos e geofísicos realizados ao longo de décadas, que indicam a «presença de todos os componentes necessários a potenciais acumulações económicas, pelo menos em algumas bacias», como em afloramentos de petróleo que surgiram nas décadas de 1970 e 1980, nomeadamente na Figueira da Foz e em Torres Vedras, todas elas sem grande interesse económico. Sabendo-se que «noventa por centro do petróleo mundial está acumulado em bacias sedimentares», tudo leva a crer que ele exista nas bacias nacionais, inclusive na Lusitânica, na região do Oeste, onde a Mohave faz pesquisa e prospeção há dezoito anos. Foram esses indicadores, de resto, que levaram o fundador da empresa, Patric Monteleone, a assinar com o governo português dois contratos de concessão, no início dos anos 1990. Na altura, adianta Arlindo Alves, «ninguém estava a fazer prospeção on-shore», ou seja, em terra. «Outras empresas tinham procurado, mas não descobriram logo e foram embora». E mesmo hoje, apenas a Mohave o procura em terra. As outras cinco empresas que tentam encontrar petróleo em Portugal fazem-no ao largo da costa..

Com tanto tempo passado, o responsável não perdeu a esperança de encontrar ouro negro nos 25 mil quadrados que compreendem a bacia Lusitânica, onde tem atualmente cinco contratos de concessão: nas áreas de Aljubarrota, Torres Vedras, Rio Maior, Cabo Mondego e São Pedro de Muel (estas são em terra, mas estendem-se para o mar). «Neste momento, decorrem duas ações. Em Torres Vedras, onde estamos a fazer o levantamento sísmico, que é a fase inicial da prospeção, e em Aljubarrota, onde já estamos a fazer a sondagem.» E acrescenta: «O furo, digamos assim».

A população de Torres Vedras já não estranha a presença das equipas da prospeção nas estradas e nos montes, mas há quem comece a questionar se debaixo dos pés correrá mesmo «um rio de petróleo». Afinal, se o há, perguntam, «por que demora tanto tempo a encontrar?» O tema vem por vezes à baila nas conversas de café de Eduardo Carvalho com os amigos. Talvez porque ao lado do estabelecimento onde se encontram para o pequeno-almoço fiquem as instalações da Prospectiuni, a empresa romena contratada pela Mohave, especializada em sísmica a duas, três e quatro dimensões. «Há que tempos os vemos por aqui», diz Eduardo, a viver em Torres Vedras há 35 anos. «Se houvesse petróleo já o teriam encontrado, não?» Um dos amigos, Pedro Aires, discorda: «Alguma coisa deve haver. Não iam enterrar aqui uma fortuna para nada. Uma coisa destas deve custar milhões.» E custa, de facto. Entre 1994, quando Patric Monteleone iniciou a pesquisa, e 2009, a Mohave já investiu sessenta milhões de dólares (46 milhões de euros) e, garante Arlindo Alves, «irá aplicar outro tanto nos próximos dois anos».

A verdade é que «o petróleo não corre no subsolo como um rio». A ser assim, talvez não fosse tão fácil achá-lo. Na verdade está entranhado nos microporos das rochas, como a água numa esponja. «É uma espécie de mineral que resulta da alteração da matéria orgânica ao longo de milhões de anos», diz Rui Vieira, geólogo da Mohave. «A matéria orgânica é sujeita a um aumento de temperatura e pressão até ser transformada em “óleo de rocha” ou petróleo. Para a matéria orgânica se transformar em petróleo, são necessárias condições geológicas muito especiais, em particular a existência de rochas-mãe, onde se gera, e rochas reservatório, onde se acumula. O fluido tenta sair do lugar apertado onde se encontra, vai passando de poro em poro e vai subindo, “migrando”, podendo chegar à superfície.» É por isso que em muitas regiões do globo, se veem afloramentos de petróleo a sair da terra. Mas são mais as vezes em que não chega à superfície. «Durante o caminho, o petróleo encontra rochas impermeáveis, que não o deixam continuar a subir. Então, fica retido e começa a acumular. São essas acumulações que tentamos encontrar.»

O aumento da escassez de petróleo é proporcional ao aumento da profundidade a que é extraído e, apesar da evolução das tecnologias e das ferramentas, que permitem chegar a locais no passado inalcançáveis, continua a ser moroso e difícil achar um dos produtos mais importantes do mundo. Pelo menos em Portugal, onde ainda não se encontraram reservas. Em todo o caso, se se considerar todo o trabalho de levantamento sísmico e de sondagem que é preciso fazer para o encontrar, os 18 anos da Mohave à procura de petróleo no nosso país não são assim tanto tempo.

No escritório da Prospectiuni em Torres Vedras trabalha um exército de gente. São 115 pessoas em diferentes departamentos, muitos geólogos e geofísicos, atrás de ecrãs de computadores gigantes a olhar para imagens indecifráveis ao comum dos mortais. «São fotografias do subsolo, desde a superfície às camadas mais profundas», explica Esat Anter. O geofísico turco trabalha para a Mohave, sediada em Houston, nos EUA, e tem a incumbência de coordenar o trabalho de sísmica da empresa romena. O espaço da Prospectiuni resume-se a uma sala grande cheia de computadores e meia dúzia de gabinetes mais pequenos. «É aqui que recebemos os dados sísmicos que estão a ser levantados no terreno, numa área total de 240 quilómetros quadrados», diz Anter. «Recebemos os dados, ordenamo-los e enviamo-los para outra empresa nos EUA, que os irá processar, interpretar e analisar.» Dessa análise resultará a decisão: furar ou não furar. «Se os geólogos, com base na informação que recolhemos do subsolo, chegarem à conclusão de que há indícios de petróleo nesta área, a Mohave fará a sondagem», garante Arlindo Alves.

A recolha de dados sísmicos é um trabalho complexo e envolve também um batalhão de gente no terreno. No cimo de uma colina em Torres Vedras, próximo da Serra de Montejunto, está um camião de gravação que funciona como uma central de receção de dados. Dois homens agarrados a telefones estão com os olhos fixos nas imagens que passam em cinco ecrãs. São romenos e não falam português. Hoje a Prospectiuni está em Torres Vedras para fazer este trabalho para a Mohave, mas quando o terminar, esta equipa pode estar em qualquer outro lugar do mundo, ao serviço de qualquer outra petrolífera.

O camião central está num ponto alto para facilitar a comunicação com as várias equipas no terreno. Os homens dentro do camião não largam o telefone: «Têm de estar em contacto permanente com as pessoas que conduzem as máquinas de vibração que percorrem a área de pesquisa», diz Esat Anter. «São estes que lhes dizem quando devem lançar as vibrações.». Do camião central não se consegue avistar nenhuma das máquinas, mas elas andam algures por ali, em grupos – um constituído por dois camiões grandes, outro por três de menores dimensões. Esat mete-se no jipe para ir ao encontro de um deles. Pelo caminho, chama a atenção para inúmeras caixas pequenas com baterias, espalhadas pelos terrenos. «Chamam-se RAU (Remote Acquisition Unit). Temos quatro mil por aí.» Cada uma delas consegue captar sinais a quilómetros de profundidade, por mais insignificantes que sejam. «São autênticos computadores, captam os sinais provocados pelas ondas vibratórias, que depois são enviados para o camião central e, daí, seguem para o escritório da Prospectiuni. Tudo por via digital.»

Esta dinâmica torna-se clara quando se está junto das máquinas vibratórias entre Matacães e Monte Redondo. Quase sempre em movimento, uma atrás da outra, percorrem toda a área a pesquisar e só param em pontos específicos para assentar as placas de vibração no chão. «São essas placas que emitem as ondas sonoras que chegam até três, quatro mil metros de profundidade.» Concluídas as vibrações num ponto, as máquinas seguem para outro – no total, nesta área, são 23 mil pontos de emissão de ondas vibratórias, com uma distância de cinquenta metros entre si. Nos locais inacessíveis às máquinas, entra em ação a equipa da drill, que abre um pequeno buraco na terra e aí coloca dinamite: «A explosão provoca ondas semelhantes às da placa de vibração. O resultado é o mesmo», concretiza o geofísico.

Para isto, naturalmente, é necessária a autorização dos proprietários dos terrenos. O que nem sempre acontece. Liete Rosendo, funcionária da Checklane, a empresa portuguesa contratada pela Mohave para obter estas permissões, perdeu a conta às pessoas com quem falou. Mas tem ideia de que foram «para cima de duzentas, umas mais fáceis de abordar do que outras». Só nesta zona. A resistência dos proprietários, muitos deles agricultores com campos cultivados, deve-se ao desconhecimento das técnicas utilizadas e ao medo de danos que possam vir a ser causados pelas máquinas durante as deslocações pelo terreno. Isto, não obstante a garantia de indemnização pelos eventuais estragos. «Nos casos em que não conseguimos autorização, 1486 até à data, as máquinas passam ao lado, o mais perto possível dos sítios onde deviam pousar as placas.» O pior é quando não se consegue saber quem são os donos. «Perguntamos nos cafés, nos restaurantes, aos vizinhos. Nada. Por vezes não se encontram os registos de propriedade.» Este trabalho decorreu há meses. Agora, Liete está de volta ao terreno, não para pedir autorização aos proprietários, mas para acompanhar as equipas de topógrafos, que espetam no chão estacas sinalizadas com fitas para indicar o percurso aos camiões de vibração, os técnicos que instalam as caixas RAU e o grupo da drill.

«É em toda esta dinâmica que consiste o levantamento sísmico a 3D do subsolo, que nos permite ver a terra por dentro», sublinha Esat Anter. «A sísmica não nos diz se há petróleo, diz-nos é se existe potencial para haver, o que é diferente.» O geofísico turco também já fez sísmica no mar, quando trabalhava para outras companhias petrolíferas antes da Mohave, mas prefere fazê-la em terra. «No mar aborrece-me. Andamos um, dois meses, às vezes mais, sem pôr os pés em terra, porque o navio não pode parar.» A Mohave já fez duas sísmicas off-shore, uma a duas dimensões, outra a três dimensões (esta mais minuciosa), nas áreas de concessão que se estendem para o Atlântico. A última foi em Agosto passado, a 3D, ao largo da costa entre a Nazaré e Aveiro, cobrindo uma área de 1100 quilómetros quadrados. Foi feita para a Mohave pela WesternGeco, uma empresa inglesa especializada em tecnologia de sísmica. Embora o objetivo seja o mesmo, os equipamentos utilizados em terra e no mar são distintos. «Em terra usamos máquinas de vibração, no mar são navios que rebocam canhões de ar, sensores geradores de energia», explica Arlindo Alves. «Os canhões, de tempos a tempos, libertam ar, como uma garrafa de champanhe quando abre, provocando uma onda sonora, uma onda de energia que desce até às profundezas e depois sobe. Nesse caminho, vão-se colhendo dados que são registados e armazenados em computadores. Os especialistas depois interpretam-nos para saberem se aquela área tem potencial.» Neste momento, os geólogos da Mohave nos EUA estão ainda a estudar essa informação.

Enquanto em Torres Vedras se faz o levantamento sísmico, em Aljubarrota, no concelho de Alcobaça, já se fura. Só furando se tem a certeza se existe petróleo ou não e, mesmo assim, pode calhar estar a fazer-se um furo ao lado. A história mundial do petróleo é farta em exemplos desses, ocorridos em países cuja fertilidade em ouro negro é hoje por demais conhecida – é o caso de Omã, na península Arábica, onde, no final dos anos cinquenta do século passado, se furou um poço numa grande estrutura identificada com elevado potencial pelos geólogos e, em vez de petróleo, se encontrou água. Algumas companhias dos Estados Unidos, Reino Unido e França abandonaram a exploração, mas duas ficaram: a Partex e a Shell. Seis anos mais tarde furaram outro poço na mesma estrutura, a apenas duzentos metros do anterior e… voilá: petróleo. Descobriram aquele que ainda hoje é o maior campo petrolífero de Omã.

Em Aljubarrota, é no meio de um descampado rodeado de oliveiras, na localidade de Vale do Mogo, que está instalada a sonda da KCA Deutag, uma empresa de perfuração alemã contratata pela Mohave para fazer aquilo a que se chama sondagem – ou seja, a perfuração. A Mohave já fez outros furos, 18 superficiais (até quinhentos metros de profundidade) e 12 profundos (além dos 1500 metros). Este poço – o quarto em Aljubarrota – é profundo.

Neste estaleiro, quase tudo é de ferro. A começar pela torre da sonda, com cinquenta metros de altura, e a acabar nas brocas que furam o subsolo. «Usamos brocas diferentes consoante o tipo de rocha que encontramos», diz Wolfgang, o chefe de equipa da sonda. «Umas são para esmagar, outras para cortar. Estas têm capacidade para perfurar até 4500 metros, mas neste poço só iremos até aos 2600. Só num poço, somos capazes de gastar três brocas. Cada uma custa cerca de cinquenta mil dólares [quase quarenta mil euros]», acrescenta o alemão, enquanto se dirige para um contentor onde estão guardados alguns exemplares.

São sobretudo americanos, austríacos, alemães, italianos, franceses e romenos, a trabalhar neste poço. Portugueses há dois. E um deles é mulher. Paula Ornelas, engenheira industrial, está aqui porque «precisavam de uma pessoa que falasse português e tratasse da logística das operações, dos custos, das despesas do estaleiro, que rondam cinquenta mil euros por dia». Diz que não se sente incomodada por ser a única mulher.

O trabalho é contínuo. Faz-se em equipas de 12 homens e por turnos de 12 horas, durante 15 dias consecutivos, ao fim dos quais os que estão agora em serviço regressam aos seus países, às suas casas, às suas famílias, e outros virão para ocupar os seus lugares, também em equipas, também por turnos, também por 15 dias. É sempre assim, em regime de rotatividade. Mas, não tarda, a sonda sairá deste local.

Num mês de perfuração, «não encontrámos o que procurávamos – gás natural -, pelo menos em quantidades que justifiquem a exploração», revela o norte-americano Steve Goerner, supervisor da sonda. «Os dados sísmicos indicavam para este local um potencial em gás natural, não em petróleo. A estrutura será desmontada daqui a uma semana. Este furo fica fechado.» E este local voltará a ser como antes: um descampado rodeado de oliveiras. Desaparecerão daqui as toneladas de ferro, os contentores que servem de casa aos trabalhadores e a grande «piscina» de lama, onde se depositam os resíduos que se formam à medida que a broca perfura a terra – que serão recolhidos e tratados por empresas especializadas.

Onde irá ser montada a sonda depois sair de Aljubarrota é questão a que nem o diretor-geral da Mohave, Arlindo Alves, consegue por enquanto responder. A oitocentos metros deste local, previa-se, mas novos dados sísmicos indicaram que o sítio mais provável para uma acumulação de petróleo fica a setecentos metros do Mosteiro de Alcobaça. Apesar de se localizar fora do perímetro de proteção do monumento, ainda que dentro da zona urbana da cidade, a instalação da sonda nesse terreno aguarda a autorização da autarquia, que não quer decidir sem primeiro aferir se existem riscos para o edifício. Não se sabe se o futuro do homem continuará a passar pelo petróleo (como acontece agora), mas, no presente, é justamente o facto de o mosteiro ser Património da Humanidade que mantém tudo em suspenso.

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